Seus olhos




Seus olhos são duas cabanas próximas
Onde acampo por instantes
De um lado, especulo o outro
Dormes serena aí dentro
Fico a te admirar como se fosse o centro
Sem quebrar o silêncio
Vejo que és linda
Mas o teu interior é ainda mais belo
No primeiro piscar de olhos a beijarei
e no próximo momento serei
Tudo, todo, tolo por ti.

Amor mesmo

Faz mais ou menos um mês que estou ''longe'' de casa, sem padrasto, sem mãe, sem irmã, sem aquele falatório todo, sem meu refúgio e com saudades. Por falar em refúgio, deixe-me expor aqui: era o banheiro da minha casa, o lugar que eu me sentia melhor, caso houvesse algo que me levasse um pouco pra baixo. Ali (além das necessidades que já sabem) era o lugar que eu ficava e fazia minhas orações, lia meus livros, ouvia músicas, estudava ou apenas ficava fitando o teto e me perguntando: ''Quando as coisas vão mudar?''. Ali eu via, ouvia, respirava devagar atentando ao tic tac do relógio que quase não se nota a não ser mesmo na madrugada. Eu gostava da madrugada, usava a maior parte dela pra refletir lá no meu refúgio. Enfim, meu banheiro, saudades de ser (in)feliz a vontade. Como estava dizendo, estou fora de casa por conta de um desentendimento com meu padrasto. No dia que brigamos, eu descobri que é fato que as palavras podem ser mais agressivas que um tapa, e também que é possível serem mais atroz que uma surra (nem quando apanhei de vara de goiaba aos 11 anos doeu tanto) Eu não quero repetir as palavras porque me dói, nesse dia também descobri que tudo que me dói profundamente fica trancafiado em mim, não sai, não reage, não é dito, é apenas pensado. Naquele dia, eu fiz um silêncio sepulcral, deixei ele falando contra mim sem reagir, ao passo que minha mente pensava várias maneiras de me livrar daquele local, o que não seria possível naquele dia pois já eram mais de 00hrs. Mas o reflexo de mim, de nós feridos, prontos pra atacar com o que chamamos de 'defesa'' agiu rapidamente ao amanhecer. Não lembrei que dia era, não me preocupei com as horas, não lembrei de tomar café, nem de escovar os dentes (pois é), nem de me olhar no espelho e tão pouco pensei: ''quais são as tarefas de hoje?'', eu sabia o que precisava: PARTIR! Eu precisava urgentemente! Sai e fui para o gabinete onde trabalho na igreja (o que se tornou meu próximo refúgio, onde escrevo nesse momento), lá encontrei o pastor e conversamos (mais chorei do que falei), decidi ficar na igreja. Algumas pessoas me disseram coisas do tipo: ''que bom, a igreja é um bom lugar, lá você ocupa a mente de coisas boas''. Vai uma explicação simples: continuo com pensamentos agitados em relação a tudo, apesar de ser um local de paz. Após alguns dias, meu padrasto me ligou, meio bruto, meio sem graça, sem jeito e envergonhado dizendo: ''você tá pensando que é assim sair de casa e não vai mais voltar pra casa?'' como quem quer dizer: ''Me perdoa...?'' Eu disse que era necessário. E mais uma descoberta, eu sou orgulhosa pra chuchu! A minha mãe, nos primeiros dias, brigava comigo por telefone fazendo chantagens emocionais fortes (e funcionava me sentia mal por tudo):'' um filho preso e a outra me abandonado'', ''você não pensa em mim'' etc. Depois, ela meio que entendeu meus motivos e ficou mais relax. Agora ela me liga pra dizer: ''vem comer o bolo que eu fiz'' ou ''vamos ali comigo andar de BRT'' (ela adora o BRT). Na verdade, esse é o jeito dela de dizer: ''estou com saudades'' ou eu te amo'', bom, pelo menos, é o que eu deduzo. Esses dias distante, eu lembrei de uma carta que precisei fazer pra minha mãe ano passado, quando fazia terapia. Essa carta está lá em casa, perto dela, mas ela não sabe de sua existência. Não tive coragem de entregar e me ocorreu mais uma ideia sobre mim mesma: covarde!
Mas desta carta termina mais ou menos assim: ''... é verdade que faltou algumas vezes calçados, lápis, caderno e até o pão, mas amor, amor mesmo nunca faltou!''
É verdade, diante de tudo isso, faltou jeito, faltou conversa, talvez compreensão, MAS amor, amor mesmo nunca faltou!