Bailarina


Como é de costume ela foi viajar pra longe sem sair do lugar, mas tão perto dos medos dançou até se sentir tonta. Sentou logo no primeiro banco, ficou entre ficar e partir. Fincou um desejo no coração, seguro-o com as mãos no peito alvoroçado. O desejo escorregou e partiu com o voo. Ela ficou e foi ver como era ter os pés no chão. A terra seca sentiu a sola quente e soada dos pés que repousou. Foi estudar, aula bruta da vida (chão), mas ela tinha cabeça nas nuvens. Recebeu as ordens que acata serenamente envolta no ritmo da vida de disciplina, que é também doçura para ela. Joelhos pressionados contra o peito sem angústias, os pensamentos começam a se aquietar para dar espaço a concentração. Solta uma perna, um passo avante, depois a outra, as vezes para chegar em lugar nenhum. Vira e revira, perde a cabeça do outro lado, deixa levar o corpo em um som de um pensamento que lhe assalta, um degrau a mais e um pouco mais de força, é hora de grand écart. Não podia sonhar pequeno, jogava com toda força como se fosse alcançar àquilo que dizem estar além do alcance de suas mãos. Mas a estrada também é grande. Enquanto começava um gigante se erguer, ela aprendia a descansar e se preparar em meio a dor nas abdominais. Recolhia-se não por medo mas por segurança em si mesma. Ela era a sementinha que de repente seria uma flor dessas que dançam com o vento com os braços em ’'quinta’’ se entregando aos pés da terra que lhe dera vida certa vez. Não lembrava de gigantes quando diante dos seus olhos enxergava uma esperança imensa. Mas a guerra existia dentro de si e se aproximava. Ela se enxergava no espelho daquela sala como um mar calmo e tranquilo, mas ainda que tranquilo quando mergulhava era sufocante. Voltava com os braços ainda em ‘’quinta’’ como quem submergiu repentinamente. Respirava tranquila novamente. Torce e retorce para um lado e para o outro, recupera o fôlego de todo. A borboleta nasce quando sai do casulo. É assim que segue seu rumo com leveza para voar. E bate suas asas dançando para ir mais alto. Até que pode enfrentar qualquer ‘’barra’’ e ser o que quiser: semente, flor, mar, borboleta, enfim, a bailarina que faz da sua dança elevação. Entre seus e outros passos, entre desejos perdidos e novos sonhos, perde-se para se encontrar em um tempo suspenso e recriar um mundo particular repleto de movimentos.

Tradução:
 grand écart: grande abertura.

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